Humanização e valorização da Enfermagem: Entrevista com a enfermeira Giselle Katrina, que conta sobre a sua rotina no combate da covid-19.
Olá, querido leitor!
Nesse bate papo com a enfermeira Giselle Katrina Aguiar da Silva, natural de Governador Valadares, mas que hoje mora em Serra, no Espírito Santo, ela explicou como um pouco como foi a sua rotina durante a pandemia do covid-19. A Giselle atua no centro cirúrgico de um hospital de grande porte e referência em traumatologia. Sua especialidade é o atendimento de enfermagem para pacientes de alta complexidades com queimaduras.
Vamos a entrevista:
Olá, Giselle, é um prazer receber você aqui no Enfermagem Raiz. Pra gente começar, fala um pouco de você…
Eu sou Giselle, tenho 40 anos, sou filha de Stowe e Ana Clara como costumamos nos identificar em MG, nascida e criada até os 23 anos em Governador Valadares. Sou casada e tenho 4 filhos. Há 5 anos aproximadamente mudamos para Serra, uma cidade que está localizada no Espírito Santo, nesse processo de mudança trouxe toda a minha família para morar nessa cidade maravilhosa. Sou uma pessoa tranquila, honesta e de coração leal. Hoje vamos falar um pouco de Humanização e valorização da Enfermagem. Gosto e prezo pela verdade custe o que custar. Tenho amor pelo ser humano e por animais. Acredito que esse amor fez escolher a profissão enfermagem para tratar os enfermos, o ato de cuidar me faz demonstrar amor e dedicação de um modo integral. E para te ser sincera sou apaixonada por isso, poder ver e acompanhar a evolução de um quadro clínico me faz realizada. Desde cedo sempre tive um forte interesse e paixão pela área de Enfermagem, por influência de amigos e familiares que trabalham no campo da enfermagem e da medicina. Em 2002, concluí o ensino médio e meu treinamento como técnica em enfermagem. Depois de ter atuado como técnica de enfermagem, decidi cursar a faculdade de enfermagem e em 2015, recebi meu Bacharelado em Enfermagem. Foquei em desenvolver a minha carreira como profissional, realizei diversos cursos de Enfermagem, mais especificamente no campo de feridas e centro cirúrgico. Hoje em dia sou enfermeira no centro cirúrgico e CME do Hospital Estadual Dr. Jayme dos Santos Neves.
Conta um pouco mais da sua trajetória profissional…
Antes de falar da Humanização e valorização da Enfermagem, vou Nesses 5 anos de formada, minha experiencia como enfermeira é em maior na assistência, mas também já atuei na supervisão e coordenação de enfermagem. Também possuo experiência como docente de curso de técnico de enfermagem.
A minha carreira como enfermeira iniciou em julho de 2016 no centro cirúrgico de um hospital de médio porte de hospital de alta complexidade, nessa época este hospital realizava uma média de 80 cirurgias por dia, com vários tipos de procedimento. Em 2017, foi um grande feito na minha vida como enfermeira, pois consegui a vaga de coordenadora de centro cirúrgico com pouca experiencia, nessa instituição eu fiquei durante dois anos. Em 2018 fui docente na escola CEDTEC, conheci muitas pessoas legais, participei no processo de formação de vários técnicos de enfermagem que até hoje tenho contato. Em 2020 veio a pandemia e encarei de frente essa caótica situação que foi vivenciada, entrei para um hospital de grande porte que foi referência para o tratamento da Covid 19, fui homenageada pela instituição com uma matéria em meu nome. Também recebi um certificado de honra ao mérito do COREN-ES, devido a minha atuação (e de minha equipe) durante a pandemia. Atualmente estou na CME como enfermeira assistencial.



Por que a Enfermagem?
O desejo de ajudar ao próximo, admiração pela área de saúde, poder vibrar e comemorar a evolução do quadro clínico de cada paciente. Também tive influência por parte de alguns parentes, pois cresci vendo e acompanhando uma parte da minha família atuando na saúde. Sem contar que também prezo muito pelo ato de ensinar alunos, orientar pacientes e ver resultados de meus esforços na melhora das condições de saúde dos pacientes.

Como foi atuar durante a pandemia do covid-19?
Vivenciamos todos os tipos de situações durante a covid-19, foi um misto de coragem e medo que nos fez encarar e trabalhar de frente com esse vírus. Muitos choros e alegrias, mas por mais perdas que tivemos, também comemoramos a recuperação dos pacientes. Durante o auge da pandemia foi um caos, pois frequentemente precisávamos adaptar os setores e rotinas a nova realidade, além de criar espaço para receber a enorme demanda de pacientes. Muitas vezes praticamente “morei” dentro de um hospital para cobrir um colega que estava doente com o coronavírus. Por incrível que pareça, por 2 anos na linha de frente, eu não fui contaminada, mas isso me levou ainda mais a dedicar e ajudar ao próximo. Houve mês em que passei 12 dias direto dentro do hospital cobrindo plantões. Faltaram leitos, vacina, mas com certeza não faltou força e garra para desempenhar e fazer tudo aquilo de melhor que aprendi no decorrer da minha profissão. Perdemos amigos, mas tenho certeza de que foram heróis e sou grata por ter tido a oportunidade de trabalhar com eles e conseguir ter amizade com tantos profissionais guerreiros.
O que te destaca como enfermeira?
Acredito que me destaco na capacidade de me adaptação, em saber atuar desde a um centro cirúrgico e CME até a uma UTI covid19, UTI geral ou para queimados. No centro cirúrgico não me considero apenas uma enfermeira que trabalha para todos os procedimentos acontecerem, atuo também na indução anestésica junto ao anestesista, sei atuar na instrumentação cirúrgica e no acompanhamento de pacientes de com traumas, em “choque”. Sei também atender um paciente grande queimado na balneoterapia, o que acredito que são poucos que entendem sobre essa função. Também desenvolvi habilidades para atuar com pacientes queimados em UTI, que por permanecer um longo período, necessitam de cuidados específicos, além de apoio da equipe, para motivar o paciente a continuar o tratamento, que é difícil e muitas vezes, doloroso ao paciente.
Qual a sua maior paixão na Enfermagem?
A carreira que envolve o cuidado humano são as que mais exigem preparo e qualidade pelos profissionais, é algo que amo fazer desde pequena, ajudar o próximo. A força de vontade e comprometimento é algo que me acompanha desde que me entendo por gente e uso isso para contribuir na melhoria do quadro clínico dos pacientes. Não me dou por vencida até obter resposta de toda dedicação ali desempenhada, vibro com cada paciente recuperado e agradeço a Deus por esse dom que ele me deu.
Qual foi o seu maior aprendizado durante a carreira?
Vejo que o meu maior aprendizado e desafio foi encarar de frente a covid19, mas isso me fortaleceu ainda mais e me fez crescer.
Quais o último livro que você leu? Por que escolheu este livro?
Gosto de ler um pouco de tudo, mas especialmente o livro “Os segredos das mulheres de influência”, que escolhi porque fala de mulheres envolvidas com espiritualidade, vida cristã com Deus.
O que você considera que poderia melhorar na formação básica do enfermeiro?
Acredito que inserir o aluno na prática desde o início do curso, até o final. Hoje a maioria dos cursos insere o aluno apenas no último ano, o que prejudica a sua formação.
Qual conselho você daria para quem está começando a carreira agora?
O conselho que dou a quem está formando agora é que tenha foco e se especialize, trace planos e seja humilde para dizer que não sabe. Se dedique dia após dia e não se dê por vencido. Trate o paciente como um todo, não veja apenas a sua doença e o trate com humanização, da forma como você gostaria de ser tratado. E claro, lute por ele com toda força de vontade.
Você acredita que a população entende o trabalho do enfermeiro?
Acho que não como deveria, pois a população ainda dá muito crédito apenas ao médico e acredita que a enfermagem só auxilia, que tem menos importância.
Você sente que é valorizada como enfermeira?
Financeiramente, definitivamente não somos valorizados. Isso é algo que estamos muito atrasados em relação a países mais desenvolvidos. Mas eu me sinto valorizada pelos pacientes, por colegas… Esses dias recebi uma carta de uma paciente, que transcrevo alguns trechos aqui:
“O trauma do acidente, a ansiedade e o medo decorrentes da internação, foram minimizados com o auxílio de profissionais maravilhosos, como a Enfermeira Giselle, que tive o prazer de conhecer em um momento tão difícil… Sua habilidade técnica para lidar com feridas de alta complexidade, como a de queimaduras, era impressionante e nem o meu médico assistente interferia nas condutas que ela tomava. Além de desempenhar de maneira exemplar o seu trabalho, com muito amor e carinho, a Enfermeira Giselle sempre demonstrou ser uma pessoa muito humana, atenciosa, que sempre me apoio durante a internação e me tratou como se eu fosse de sua própria família.
Depois que obtive alta hospitalar, ela não deixou de me acompanhar e por um bom tempo continuou a orientação clínica por telefone. Ela me ensinou a cuidar de minhas queimaduras para que eu ficasse bem e sem sequelas, o que de fato ocorreu e tenho certeza de que se hoje eu estou bem e sem sequelas, isso é devido os cuidados que recebi da Enfermeira Giselle.” – Paciente atendida no Hospital Estadual Dr. Jayme dos Santos Neves
O que você diria para quem tem interesse em atuar com pacientes queimados? Por onde começar?
Atuar com pacientes queimados exige domínio da enfermagem, pois é um ambiente complexo devido a gravidade dos pacientes. É necessário aplicar o conhecimento técnico-científico, mas sem deixar de lado a humanização, afinal estamos lidando com outra vida. Muitas pacientes em reabilitação não recebem o tratamento adequado devido a indisponibilidade de atendimento e quando chegam a nós, estão frágeis e precisam de muito apoio. Essa é uma especialidade que exige muito amor e lealdade porque muitos pacientes não falam corretamente e muitos omitem o que acontece. Meu conselho é dedicação, discernimento. Buscar uma especialização é o passo ideal para iniciar nessa área.

Espero que você tenha aproveitado a entrevista sobre a humanização e valorização da Enfermagem. A Giselle também participou do 6º episódio de nosso podcast e você pode conferir a seguir:
Nos vemos no próximo post!



