Prática clínica e pesquisa em saúde mental, entrevista com a Dra. Vanessa Andrade Martins Pinto, especialista em enfermagem em saúde mental.
Olá, meu querido leitor!
Dias atrás, tive a oportunidade de entrevistar uma enfermeira doutora lá do Rio de Janeiro, a Vanessa Andrade Martins Pinto. Ela é uma verdadeira especialista em saúde mental, que é a área que desenvolveu a sua prática clínica, que se formou mestre e doutora e que conduziu diversas pesquisas. Atualmente a Vanessa atua como Vice coordenadora do ambulatório geral do Instituto de Psiquiatria, o IPUB, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ela também é presidente do Centro de Estudos do Hospital Municipal Rocha Maia da Secretaria Municipal do Rio de Janeiro. Espero que goste dessa entrevista!
Seja muito-bem-vinda, Vanessa, antes de iniciarmos, conta pra gente um pouco de sua trajetória profissional.
Obrigada, Jonas, pelo convite para participar aqui no blog. Para conversarmos sobre a Prática clínica e pesquisa em saúde mental.Bom, comecei minha trajetória profissional na Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Logo, em seguida da minha colação de grau iniciei a minha Pós-Graduação Lato Sensu em Enfermagem em Saúde Mental e Psiquiatria nos moldes de Residência pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Nesse período, havia prestado concurso público para Enfermeiro da UFRJ e para Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro. Fui aprovada em ambos os concursos e tomei posse dos dois. Pude escolher na UFRJ minha lotação, e, óbvio que optei pelo Instituto de Psiquiatria IPUB da UFRJ. Onde, inicialmente fui trabalhar como Enfermeira Supervisora Plantonista das Enfermarias Feminina e Masculina.
Após algum tempo, comecei a frequentar como ouvinte o Laboratório de Projetos e Pesquisa em Psiquiatria e Saúde Mental (LAPEPSM) ligado à EEAN/UFRJ, local em que participei de algumas discussões de Projetos de Pesquisa para melhoria da assistência no IPUB e na rede de saúde mental do Sistema Único de Saúde (SUS). E, desenvolvi a minha Dissertação de Mestrado, com orientação da Professora Lílian Hortale da EEAN/UFRJ. Após, o término do meu Mestrado veio o convite para trabalhar no setor do Ambulatório Geral de adultos do IPUB/UFRJ. Chegando lá comecei a me envolver com a Porta de Entrada (Recepção de novos pacientes), ajudei na criação do Grupo de Recepção e Encaminhamento (GRE) para as avaliações de primeira vez e contribui para implantação do Sistema de Regulação de vagas (SISREG) do município do Rio de Janeiro.
Quando fui convidada pela Coordenação Geral desse ambulatório para ser vice coordenadora. Aceitei de imediato e já comecei a pensar na articulação da rede de atenção especializada em Psiquiatria e a Saúde Primária, desenhando o meu futuro projeto de Tese de Doutorado. Porém, precisava procurar outra instituição pública de referência para a Saúde Pública para construção do meu Projeto de Doutorado. Fui, então, fazer o processo seletivo para Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ). Fui aprovada e desenvolvi minha Tese de Doutorado sob a orientação do Profº Paulo Amarante.
Nesse período também recebi e aceitei o convite do Prof. Paulo Amarante para participar das reuniões dos projetos de pesquisa do laboratório Memória da Reforma Psiquiátrica no Brasil (LAPS) da ENSP/FIOCRUZ e para ministrar aulas no Curso de Especialização em Saúde Mental e Atenção Psicossocial. Sendo, também, orientadora dos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) deste mesmo laboratório, sendo escolhida pelos próprios alunos após a ministração do módulo que eu era responsável: saúde mental na atenção básica.


E como você descobriu que você queria seguir carreira na área de saúde mental?
Descobri que queria seguir carreira na Saúde Mental durante o estágio do Programa Curricular Interdepartamental X (PCI-X) durante a minha graduação na EEAN/UFRJ. Comecei a me interessar cada vez mais sobre a Teoria de Peplau e a literatura sobre a Enfermagem Psiquiátrica baseada em Taylor e Travelbee. Onde, a principal ferramenta de trabalho do enfermeiro é a escuta, através de um cuidado de Enfermagem pautado nas necessidades de cada indivíduo.

Seu doutorado foi na área de saúde mental, fala um pouco sobre a sua linha de pesquisa e o que você fez no doutorado.
No meu Doutorado procurei entender o que os profissionais que trabalham na Atenção Primária entendiam como “casos” de saúde mental. Pois, a banalização do sofrimento humano e a enorme desigualdade social em nosso país geram muitos conflitos cotidianos. Tudo pode ser “patologizado” e entendido como “caso” de saúde mental.

Como especialista no campo da saúde mental, você considera que o enfermeiro sai da faculdade preparado para lidar com pacientes com algum tipo de transtorno psiquiátrico?
Penso que ainda temos muito que caminhar com disciplinas na graduação de enfermagem que consigam trabalhar prioritariamente o estigma da pessoa em sofrimento psíquico ou medicamente falando, da pessoa com transtorno mental. A própria denominação de transtorno, já traz um preconceito de ser uma pessoa transtornada, sem razão, incapaz de tomar suas próprias decisões.
Você considera ou observa na sua prática que existe algum receio ou preconceito dos próprios enfermeiros para atuar na saúde mental?
Sim, muitos enfermeiros ainda carregam o estigma da sociedade e acham que trabalhar na saúde mental é literalmente uma “loucura”. O louco é aquele que não tem razão, capaz de cometer os maiores delitos e atrocidades. Gerando medo e conflitos internos, em como lidar com o diferente, aquele que nunca sabemos o que será capaz.
Comparando com outros países, você considera que nossas políticas de saúde mental são apropriadas ao nosso contexto atual?
Penso que carecemos de investimento nas nossas Políticas de Saúde Mental, assim como em toda a nossa Saúde Pública. A Lei 10.216/2001 da Reforma Psiquiátrica trouxe muitos avanços, mas precisamos avançar muito mais em termos de serviços comunitários substitutivos ao modelo manicomial (internações psiquiátricas de longa permanência, algumas até de moradia). No entanto, no atual governo estamos sofrendo um retrocesso em nossas políticas de saúde mental, priorizando a construção de novos leitos em hospitais psiquiátricas e financiando novas comunidades terapêuticas.
O que ainda precisa ser feito nesse campo?
Como já mencionei acima, precisamos ter mais financiamento para as Políticas de Saúde Pública, e para Política de Saúde Mental mais verbas para os serviços de base territorial.
E como funciona a sua rotina de trabalho?
Trabalho como diarista de 2ªf a 6ªf, no turno da manhã como vice coordenadora do ambulatório geral do IPB/UFRJ e no turno da tarde como Presidente do Centro de Estudos de uma unidade Hospitalar da Prefeitura do Rio de Janeiro.
Em média quantos atendimentos você faz por dia?
Atendemos em média cinco (05) pacientes por turno. Esses atendimentos são realizados pelo Grupo de Recepção e Encaminhamento (GRE) e em equipe multidisciplinar. Acolhemos o paciente em equipe (médico residente, enfermeiro staff, assistente social staff e psicólogo staff) e depois discutimos o caso em equipe e damos o devido encaminhamento.
Quanto tempo um paciente costuma ser atendido pela equipe? É um tratamento demorado?
Nossos atendimentos são todos de primeira vez, onde o paciente é avaliado e recebe um encaminhamento para seguir seu tratamento seja no próprio Instituto de Psiquiatria IPUB/UFRJ ou no serviço de saúde mental mais próximo de sua residência. Pode acontecer do paciente de primeira vez precisar de duas ou três consultas/ atendimento no GRE antes de fecharmos um encaminhamento.
Você acredita que exista uma boa comunicação entre a equipe que atende o paciente em casos agudos ou emergências psiquiatras, com a equipe que faz o acompanhamento constante?
Infelizmente a integração com o serviço de emergência psiquiátrica e a equipe que faz o acompanhamento regular ainda é um “nó” na rede de saúde mental aqui no Rio de Janeiro, e, acredito que no Brasil. Falta uma integração. Por exemplo, aqui no IPUB/UFRJ não temos serviço de emergência, a nossa referência para emergência é o Instituto Municipal Philippe Pinel (IMPP) e a nossa comunicação é muito deficiente. Temos que fazer por escrito em um impresso que utilizamos de referência e contrarreferência para outros serviços. O ideal seria que pudéssemos nos comunicar passando o caso verbalmente também.
Conta uma situação inusitada que já aconteceu contigo.
Enquanto vice coordenadora do ambulatório acolhi o caso de um paciente que tinha prontuário, fazia acompanhamento regular em nosso ambulatório, porém entrou em surto e a família o trouxe para atendimento no ambulatório. Precisei explicar a eles que não atendemos emergências, só consultas regulares. Então, orientei e encaminhei o paciente e sua família para a emergência do IMPP. O paciente começou a gritar que era “paciente do IPUB e não do Pinel”. Foi uma situação muito constrangedora, tivemos que nos mobilizar e um membro da equipe acompanhar o paciente e a família até a emergência do Pinel.
Como você se vê daqui a 10 na Enfermagem?
Daqui a 10 anos espero estar contribuindo para a pesquisa, para o ensino e para uma assistência de Enfermagem em Saúde Mental baseada no cuidado individualizado e centrado nas necessidades do paciente, de base territorial.
Descreva o “enfermeiro ideal” para atuar com saúde mental.
Penso que a “enfermeiro ideal” para atuar na saúde mental precisa ter disponibilidade interna. Pois, a nossa principal ferramenta de trabalho é a escuta. E para escutar o sofrimento do outro, temos que muitas vezes, aquietar nosso eu, se fazer secretário da loucura, como já afirmava Lacan. E essa não é uma tarefa muito simples. Costumo brincar em minhas aulas que na saúde mental não temos a “bandeja contendo”, não conseguimos nos esconder atrás de técnicas e procedimentos. A interação com o paciente é a nossa principal ferramenta de trabalho.
O que você considera que poderia melhorar na formação básica do enfermeiro?
Na formação básica do enfermeiro penso que deve ser introduzida disciplinas sobre relacionamento interpessoal, escuta e acolhimento. Independente da área que o enfermeiro irá atuar, precisará desenvolver a capacidade de se relacionar, seja na equipe multidisciplinar, seja com o paciente e seus familiares.

O que você diria para quem tem interesse em atuar com saúde mental? Por onde começar?
Para os Enfermeiros que possui interesse na prática clínica e pesquisa em saúde Mental aconselharia conhecer primeiros os serviços de Saúde Mental abertos, substitutivos e de base territorial, como Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e Centros de Convivência que atuam na contramão do estigma da doença mental. E começar a se apropriar da prática clínica e pesquisa, por meio da literatura em Enfermagem Psiquiátrica e Saúde Mental, posso dar como referências: Hildegard Peplau, Joyce Travelbee e Taylor.
E aqui termina mais essa entrevista sensacional sobre Prática clínica e pesquisa em saúde mental. Espero que você tenha gostado dessa entrevista. Ah, a Vanessa também participou do episódio #8 de nosso podcast. Confere aí:
Nos vemos no próximo post. Até mais!



