Prática Clínica do Enfermeiro brasileiro e americano possuem muita coisa em comum, você sabe quais são as diferenças na prática nestes países?
A Enfermagem é uma profissão fundamental e considerada nuclear na estrutura profissional de saúde no Brasil e no mundo. É uma categoria profissional que se organiza de forma diferenciada e que varia de um país para outro. Com o rápido avanço e a crescente complexidade dos cuidados médicos e de saúde de uma forma geral, bem como o estabelecimento de ampla sistematização de atenção à comunidade, a enfermagem agora se depara com inúmeras questões desafiadoras e que exigem conhecimento científico para respaldo das ações realizadas.
Para ingressar em qualquer instituição de saúde privada, o enfermeiro deve passar por um processo seletivo, no qual realiza uma prova e entrevistas com psicólogas e chefia de enfermagem, para estar apto a ingressar nas instituições de saúde; ou presta concurso público por meio de exame intelectual pré-agendado por meio de edital para preenchimento de uma vaga no mercado de trabalho e pode atuar em diversas áreas da saúde.
A inserção do enfermeiro no mercado de trabalho brasileiro não é fácil para o indivíduo sem experiência prévia, especialmente se ele não aprimorar sua qualificação profissional, seja por meio de especializações acadêmicas como cursos de especialização, programas de residência, mestrado ou doutorado. Essa realidade é completamente diferente da que os enfermeiros americanos vivem, já que lá sobram vagas no mercado de trabalho, com salários incrivelmente altos e condições de trabalho normalmente melhores do que as que encontramos no Brasil.
No decorrer do tempo e percurso profissional, o enfermeiro atinge a sua maturidade e plenitude profissional, e se torna especialista na área de atuação da enfermagem escolhida, e passa a ter domínio de suas habilidades e destrezas da sua função juntamente com a parte técnica e o reconhecimento profissional. Com isso, o enfermeiro desenvolve sua prática clínica na assistência, área acadêmica, gerencial e de planejamento. O enfermeiro possui várias áreas para atuar e ampliar sua carreira e pode desenvolver atividades com diferentes atribuições como orientador, educador, área assistencial, gerente e supervisor; juntamente com suas habilidades clínicas e gerenciais, dentre outros como liderança, realização planejamentos, organização, sistematização da assistência de enfermagem, coordenação e supervisão da equipe de enfermagem, realização de procedimentos privativos do enfermeiro, conforme a classificação e regulamentações pelo COFEN.
Prática do Enfermeiro brasileiro
O enfermeiro no Brasil é multifuncional, o que permite que a sua atuação seja em diversas funções como: gestão da equipe de enfermagem e no gerenciamento de assistência e coordenação da estratégia familiar. O Sistema Único de
Saúde (SUS) é uma referência mundial, o que coloca o Brasil como referência na atenção primária à saúde e a enfermagem é um ponto chave para o bom funcionamento do sistema.
No Brasil, o enfermeiro pode atuar em 70 áreas assistências diferentes e diretamente no ensino e pesquisa. Conforme o COREN, o enfermeiro no Brasil deve: realizar consultoria, auditoria e emissão de pareceres, coordenar, planejar, organizar, executar e avaliar a assistência de enfermagem, cuidados de enfermagem que apresentam uma grande complexidade técnica e que são exigidos conhecimentos científicos e maior capacidade da tomada de decisão imediata, o enfermeiro no Brasil tem diversas atribuições, porém não tem a liberdade da tomada de decisão que o enfermeiro tem nos EUA.
O fato é que a enfermagem tem uma rotina de trabalho extenuante, carga horária rígida, complexa e fragmentada e não tem tanta autonomia para atuar quanto um enfermeiro dos EUA, consequentemente os profissionais experimentam o estresse ocupacional, no qual incluem: alta demanda, necessidade de atendimento rápido, medo de perder o emprego, aumento gradativo do número de horas e três turnos de trabalho na área hospitalar.
Prática Clínica Do Enfermeiro Nos EUA
Nos Estados Unidos da América, a prática clínica do enfermeiro é diferente ao se comparar com o Brasil, pois a equipe de enfermagem apresenta diversos níveis profissionais, apresentados a seguir:
- Certified Nursing Assistant (CNA): são treinados para realizar alguns procedimentos que auxiliam e trabalham sobre a supervisão de Registered Nurse (RN), as suas práticas são: realizar sinais vitais, banho, transporte de paciente e dispensa de medicamentos.
- Licensed Practical Nurse (LPN): Além das funções de um CNA, o LPN geralmente é qualificado para preparar pacientes para procedimentos cirúrgicos, realizar registros de enfermagem nos prontuários dos pacientes, trocar curativo, punção venosa periférica, cateterismo vesical, administração de medicamentos intravenosos, sondagem nasoenteral e nasogástrica;
- Registered Nurse (RN): Desenvolvem as atribuições dos CNAs e LPNs, os RNs e são qualificados para elaborar o plano assistencial de enfermagem e supervisionar o trabalho dos CNAs e LPNs;
- Advanced Registered Nurse Practitioner (ARNP): São profissionais de enfermagem que apresentam estudos avançados semelhante ao mestrado ou doutorado no Brasil, no qual os profissionais podem desenvolver a prática avançada em enfermagem e exercer a função de enfermeiro obstetra, especialistas clínicas, intensivista e enfermeiras anestesistas.
Os RNs após formados são obrigados a passar por uma prova para conseguir a sua licença profissional nos conselhos estaduais e poder atuar no mercado americano de saúde, este tipo de avaliação é semelhante ao exame da Ordem dos Advogados no Brasil (OAB) e o nome deste exame é NCLEX-RN (National Council Licensure Examination for Registered Nurses). Cabe ressaltar que o RN é o profissional que mais se assemelha ao enfermeiro brasileiro em termos de prática clínica. O RN, após alcançar significativa experiência profissional, poderá realizar o programa de mestrado ou doutorado para desenvolver as práticas avançadas na enfermagem, mas sem a necessidade de se realizar uma prova como o NCLEX-RN.
O exame NCLEX-RN identifica pontos fortes e fracos do profissional enfermeiro e é um requisito dos conselhos estaduais americanos para que o profissional possa atuar. É comum que os RNs busquem educação adicional para obter um mestrado em enfermagem ou doutorado em ciências da enfermagem, que contribui para um melhor preparo em funções de liderança ou práticas avançadas dentro da enfermagem. Os cargos de gestão e ensino exigem cada vez mais que os candidatos possuam um diploma avançado em enfermagem.
Após aprovação do enfermeiro na prova do NCLEX-RN, ele está apto a trabalhar e exercer as seguintes funções: realizar exames físicos e testes diagnósticos, implantar o plano assistencial de enfermagem, promover a educação de paciente e familiares sobre o processo de saúde doença, administrar medicamentos, realizar curativos em feridas, realizar cateterismo venoso e vesical, sondagem oral, nasal e retal com diversos tipos de sondas, interpretar exames e sintomas e tomar as ações necessárias, discutir casos de pacientes com nurse practitioners (NPs) e profissionais médicos para determinar e traçar planos de tratamento para os pacientes, bem como realizar a gestão da equipe de enfermagem.
A prática clínica do NP é delineada dentro da nova estrutura e responsabilidade da enfermeira de prática avançada, que foi identificada da seguinte forma: liderar e supervisionar uma equipe de enfermagem dentro de uma unidade clínica, desenvolver protocolo de atendimento clínico, fornece cuidados complexos aos pacientes, atuar como enfermeiro referência em experiência clínica, gerenciar os serviços conduzidos por RN para fornecer o melhor atendimento especializado para o paciente, treinar e supervisionar RN, LPN e ensinar novos enfermeiros a desenvolverem práticas de enfermagem avançada, iniciar e participar da prática baseada em evidências e pesquisa na enfermagem, participar do planejamento, implementação e avaliação do serviço de enfermagem e coordenar e implementar novas iniciativas de melhoria do serviço de enfermagem.
Diferença na prática
O enfermeiro no Brasil pode atuar em diversas áreas diferentes como orientador, educador, área assistencial, gerente e supervisor; juntamente com suas habilidades clínicas e gerenciais, além de apresentar a multifuncionalidade, no qual permite que a sua atuação se desdobre em diversas funções nas mais de 70 áreas assistências diferentes. No Brasil, cabe ao enfermeiro coordenar, planejar, organizar, executar e avaliar a assistência de enfermagem, prestar cuidados de enfermagem que apresentam uma grande complexidade técnica e que são exigidos conhecimentos científicos e maior capacidade da tomada de decisão imediata e realizar consultoria, auditoria e emissão de pareceres.
A classe de enfermeiros com formação superior nos EUA está dividida em duas categorias, que são os enfermeiros RN e os Advanced Registered Nurse Practitioner (ARNP). O enfermeiro RN tem atuação parecida com o enfermeiro brasileiro, porém ele tem uma maior liberdade para a tomada de decisão frente a intercorrências e diagnósticos de pacientes. O enfermeiro antes de adquirir a licença profissional ele deve realizar uma prova de conhecimento no qual é conhecida como NCLEX-RN, algo que até o momento ainda não existe em território brasileiro.
O ARNP é uma classe de enfermeiro que não existe no Brasil e seu campo de atuação está relacionado com as práticas avançadas que ele pode desenvolver nas áreas clínicas, como exemplo enfermeiro obstetra, especialistas clínicas, intensivista e enfermagem anestesiologista. Para o enfermeiro realizar práticas avançadas, deve terminar o programa
de mestrado, obter certificações e aprovações em exames específicos e então, poderá exercer a sua função. Durante a sua prática clínica, cabe ao ARPN todas as funções de RN, mais as funções compartilhadas com outros profissionais de saúde, como o diagnóstico de doenças, acompanhamento clínica, escolha do melhor tratamento etc.
O enfermeiro americano possui maior autonomia na tomada de decisão clínica e pode realizar práticas avançadas que não existem no Brasil. Outra constatação interessante é que a formação do enfermeiro brasileiro possui uma carga horária de estudo maior que a do enfermeiro americano, mas que ainda assim não contribui por si só, para uma maior autonomia profissional. Ainda há muito o que se estudar a respeito do assunto, mas é esperado que este artigo contribua para a discussão a respeito da prática do enfermeiro brasileiro e mostre possíveis caminhos para uma atuação com maior autonomia profissional.
Texto adaptado de meu artigo original:
Cesário, J. M. S., Flauzino, V. H. P., Hernandes, L. O., Gomes, D. M., & Vitorino, P. G. S. (2021). Prática Clínica Do Enfermeiro: Diferenças entre Brasil e Estados Unidos da América. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento.15 (5), 40-55. DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/pratica-clinica.



